27 de jul de 2010

ENTREVISTA COM O PROFESSOR DR. EDUARDO AUGUSTO TOMANIK



Olá, pessoal! Nesta quinta-feira (29/07) teremos apresentação do seminário “O que é ciência? Conversações entre Popper, Kuhn e Tomanik”, pelo grupo formado por mim, Luiz e Ronald. A grande notícia é que conseguimos uma entrevista exclusiva com o Professor Tomanik!

Domiciliado na Rua Kingston n°. 68, do pacato bairro do Jardim Canadá, em Maringá, o Prof. Tomanik, 55 anos, nascido em São José do Rio Preto, casado a 27 anos com Geni (psicóloga e ex-aluna), pai de Marcela (também psicológa e ex-aluna), nos falou sobre sua formação, sua visão sobre a ciência, sobre Kuhn e Popper, sobre política; me deu uns “puxões de orelha”, e também deixou uma mensagem para nossa turma.

Comentem à vontade!

abs.
Leonardo.

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Leonardo : Quais eram suas disciplinas favoritas no tempo de escola?

Tomanik: No início me interessei por aquelas disciplinas que pareciam ser, ao meu olhar ingênuo, mais "científicas", ou seja, em termos de agora, mais próximas às ciências da natureza: Genética, Anatomia e, no campo da Psicologia, a Psicologia Comportamental.

Só durante o curso entrei em contato com as idéias marxistas. Lembrem-se que isto era proibido, na época, e é claro que um adolescente vivendo em Neves Paulista tinha pouca chance de ter ouvido falar dessas idéias.

A partir daí percebi que Ciência e ação política não podiam ser distantes, como pregavam os manuais de iniciação científica que tínhamos que ler. Com isto, rompi com as idéias da Psicologia Comportamental e passei a me aproximar mais das Ciências Sociais, como a Antropologia e especialmente da Psicologia Social, de base dialética, que me acompanha até hoje.

Ao mesmo tempo, comecei a perceber que a Ciência não constituia um conjunto acabado e inquestionável de normas, práticas e saberes; que também podia ser um objeto de estudo. Assim me aproximei da Metodologia.


Leonardo: Que fato, ou pessoa, desencadeou o interesse do senhor pelo curso de licenciatura em psicologia?


Tomanik:Não tenho a mínima idéia sobre o que me levou a escolher a Psicologia.
Durante toda a minha infância, tanto a família (pais, avós, tios) quanto eu mesmo mantivemos a expectativa de que meu futuro seria a Medicina. Na hora de me preparar para o vestibular, descobri que não era isto que queria (também não sei porque).

Para falar a verdade, quando escolhi a Psicologia eu tinha idéias muito vagas sobre o que seria ela. Só sei que, como bom adolescente, um dia decidi - e fui.


Leonardo: O senhor é licenciado pela PUC de Campinas, mestre pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor pela PUC/SP e atualmente é professor da Universidade Estadual de Maringá. Como se deu essa trajetória?


Tomanik: A escolha inicial, pela PUC de Campinas, veio como parte daquele processo de opção pela Psicologia: havia poucos cursos de Psicologia, na época, e Campinas me pareceu uma boa opção, também não sei porque. Fiquei sabendo do vestibular faltando poucos dias para o encerramento das inscrições e decidi tentar. Como fui aprovado, nem me preocupei em estudar outras alternativas.

Num Congresso de Psicologia em Ribeirão Preto, já no último ano da Graduação, fiquei amigo de um grupo de estudantes da Paraíba que me passaram informações sobre o Mestrado de Psicologia Comunitária em João Pessoa. Aí somaram-se vários fatores: eu tinha muita vontade de conhecer o Nordeste, não como turista, mas vivendo lá; estava mais interessado na carreira acadêmica que nas áreas tradicionais de atuação da Psicologia (clínica, organizacional, escolar) e tinha interesse em me dedicar à pesquisa, especialmente de temas ligados às populações mais carentes. Diante disto tudo, o Mestrado se tornou uma opção interessante.

Fui aprovado, ganhei uma Bolsa, o que me permitiu sobreviver por 2 anos, cumpri os créditos teóricos e passei a procurar trabalho como Professor. Fiquei um ano em Baurú (Estado de São Paulo) e recebi um convite para assumir um lugar na Universidade Estadual de Maringá, onde estou até hoje. A saída para o Doutorado, anos depois, foi um momento de re-atualização e uma parada para uma série de reflexões, processos necessários na vida acadêmica.

Leonardo: Foi a partir dos estudos para sua tese de doutorado “Ser e não ser: a Pesquisa em Psicologia no Brasil e a questão da Cientificidade” que surgiu seu interesse pelo estudo da ciência?

Tomanik: Ao contrário. Foi o interesse que deu origem à tese. O afastamento para o Doutorado representou a oportunidade para que eu me dedicasse a desenvolver leituras e reflexões que já vinham sendo gestadas e acalentadas. Tanto é assim que, além da tese, foi neste período que eu escrevi "o olhar no espelho..."

Leonardo: Para o senhor o que representou a publicação do livro “O olhar no espelho”? Hoje seria possível falar em um “efeito Narciso” na relação entre a ciência e o espelho?

Tomanik: O primeiro livro representou ao mesmo tempo um imenso desafio e uma continuidade natural de um processo que já vinha sendo desenvolvido a tempos.

Na graduação, fui aluno de Alfonso Trujillo Ferrari, já falecido, autor de um manual de iniciação cíentífica muito utilizado na época. Tanto nas aulas quanto nas leituras do manual eu não concordava com algumas das suas idéias, mas não conseguia, na época, aprofundar estas divergências (nem poderia).

Mais tarde, fui aluno de João Francisco Régis de Morais, autor, entre vários outros, de "Ciência e Tecnologia - abordagem metodológica e crítica", no qual a Ciência é tratada de forma mais humana, menos mecânica. Outro professor e amigo importante nesta trajetória foi Jorge Benjamín Martínez Fernández, com quem aprendí que não é proibido pensar e construir novos caminhos.

Como continuação desta trajetória, quando assumi disciplinas ligadas à metodologia e às pesquisas, queria transmitir aos alunos o ideal de que a prática das ciências é (ou deve ser) um processo criativo e reflexivo. A tese e o livro fizeram parte deste processo.

Sobre a sua segunda pergunta, acho que depende do que estamos chamando de Efeito Narciso. Minha intenção, ao escolher o título, foi sugerir que, ao menos nas Ciências Sociais, aquele que observa é, também e inevitavelmente, o observado. Além disso, o que percebemos no espelho é muito mais fruto de nossas interpretações que resultado de um processo efetivado pelo espelho. O olhar que me olha no espelho é sempre o meu olhar sobre mim.

Assim, se pensamos em Narciso simplesmente como aquele que contempla seu reflexo, todas as Ciências Sociais são, necessariamente, narcísicas. Se pensarmos em Narciso como aquele que, ao contemplar-se, apaixona-se e não consegue mais perceber o outro, gostaria de acreditar que a Ciência não é assim. Também prefiro pensar que ela não é sempre assim. Mas não posso negar que isto ocorre, e com alguma frequência.

Luiz Carlos: Na definição de ciência, o senhor vê alguma superioridade do pensamento de Thomas Khun sobre o de Karl Popper, e vice-versa? Esses dois autores tiveram algum peso para a formação de sua visão sobre ciência?

Tomanik: À rigor, eles assumem e enfrentam desafios diferentes. Popper elabora uma Filosofia da Ciência ou, como ele mesmo denomina, uma Lógica do Pensamento Científico. Khun traça o que poderíamos chamar de uma Sociologia ou de uma Antropoplogia dos grupos de cientistas. Popper é tanto descritivo quanto prescritivo; tenta mostrar como a ciência age e propõe modelos ideais de ação. Khun pretende ser apenas descritivo. Por isto, é difícil traçar comparações diretas.
O pensamento de Popper é mais profundo e cuidadosamente elaborado. Isto não significa que o pensamento de Khun seja pouco útil ou menos válido; apenas que ele se propôs a uma tarefa diferente.

Para ser coerente, tento evitar que minha visão sobre a Ciência seja algo pronto e acabado. Por isto, cada um dos autores que leio contribui, de uma forma ou de outra, para minha forma de pensar. Isto não significa, claro, um ecletismo acrítico, a aceitação incondicional de cada uma e de todas as teorias (o que seria um absurdo).

Leonardo: É possível que até o fim deste século a crença na ciência e na tecnologia reduza a índices mínimos a importância da filosofia e da religião para a sociedade?

Tomanik: Como Marx, penso que a História é construída pela ação dos homens. Por isto, ao contrário de muitos dos que se dizem marxistas, não creio que ela seja previsível ou pré-determinada. Prefiro não arriscar adivinhações
O que vejo acontecendo, hoje, no que chamamos de ocidente, é que o imediatismo e a valorização apenas daquilo que pode ser expresso em termos monetários vem diminuindo o papel tanto da filosofia quanto das ciências humanas como campos de reflexão. Elas são reconhecidas e valorizadas apenas quando apresentam ou se propõem a oferecer soluções práticas e rápidas aos problemas que são formulados segundo a lógica do mercado. Por sua vez, as religiões que se mostraram mais ágeis e mais dispostas à aderir à esta lógica, vêm ganhando espaço rapidamente.

Não podemos nos esquecer que a tão falada globalização não é, de fato, um processo global e que boa parte da humanidade vive um processo que poderíamos chamar de tribalização. Nesta metade ideológica do mundo, cresce a importância do pensamento religioso tradicional e fatalista e as ciências humanas e sociais são ainda menos valorizadas.Parece que o jogo não está muito favorável ao nosso time, não é?


Leonardo: Certo filósofo uma vez afirmou “Não há fatos morais, mas sim interpretações morais dos fatos”, o relativismo na ciência será o fiel da balança para desenvolvimento de uma nova moralidade no mundo?


De novo, prefiro não brincar de oráculo. De qualquer forma, não acredito que a história possa ser determinada por um fator isolado. O desenvolvimento das Ciências ocorre em conjunto e em interação com o desenvolvimento da sociedade. Pensar em um "fiel da balança" ou em um fator decisivo me parece mais uma opção do pensador; os processos sociais são complexos e não podem ser adequadamente compreendidos à partir da influência de um fator isolado.


Leonardo: Como o senhor analisa o fato de o homem já ter conseguido ir à lua, explorar o planeta Marte, porém ter avançado tão pouco em questões básicas como, por exemplo, a erradicação da fome no mundo, o zelo pelos recursos naturais da Terra. A ciência é co-responsável ?


Tomanik: Os fatos que vocês citam apenas espelham o que os diretores da grande empresa Terra S/A (que é conduzida muito mais como uma Cia. Ltda.) valorizam. O zelo pelos recursos naturais, que nasceu como uma preocupação com o planeta e a vida, vem se tornando rapidamente mais um argumento de vendas. Se conseguirmos fazer com que a erradicação da fome seja lucrativa, ela provavelmente será alcançada muito rapidamente. Por enquanto, parece que a fome é mais interessante, em termos de mercado, que sua erradicação. Por isto ela persiste.

A ciência e os cientistas fazem parte do processo (muitas vezes com entusiasmo e alegria).

Leonardo: Pelo histórico da nossa relação com o meio-ambiente, é possível concluir que estamos fadados a uma extinção precoce?


Tomanik: Já não podemos mais acreditar piamente na racionalidade humana. Por outro lado, prefiro também não pensar que somos tão irracionais assim.
Prefiro voltar a tratar deste assunto daqui a uns 200 ou 500 anos. Aí teremos mais informações...

Leonardo: O senhor tem alguma ideologia política? Como analisa os 8 anos de governo Lula?

Tomanik: Alguma ideologia sempre temos. O que não consigo, neste momento, é definir clara e sinteticamente a minha, Talvez porque prefira não fazê-lo.
Fui um dos milhares que assinou o manifesto de fundação do PT. Fui filiado e militante do partido durante bom tempo.

Vivi a primeira eleição do Lula como um momento cheio de contradições.
Emocionalmente, me envolvi muito. Racionalmente, não tinha ilusões de que aquela eleição seria o ponto de partida para mudanças radicais, até porque tinha a percepção de que ela só havia ocorrido em função de um "abrandamento" do discurso e das propostas do Partido e do candidato.

Por outro lado, acredito que o imenso e intenso apoio popular daquele momento poderia ter sido usado como base para a promoção de algumas mudanças um pouco mais profundas. Infelizmente, parece que a política não é arte do possível, mas do negociável. Com isto, perdemos o que penso que seria uma oportunidade histórica.
Sinteticamente, creio que os mandatos de Lula trouxeram alguns avanços interessantes, mantiveram alguns dos acertos e muitos dos erros dos governos anteriores e produziram alguns erros novos. Foi ruim? Talvez não, mas poderia ou deveria ter sido melhor.

Quanto ao PT, vêm se revelando um partido exatamente igual a todos os outros, por isto me afastei dele.

Leonardo: No Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UnB, o estudo de metodologia científica tem como base suas “conversas sobre pesquisa em ciências sociais”, mande um recado a seus interlocutores!

Tomanik: Pensem! Não desistam de pensar, não tenham medo de pensar. Para acreditar, obedecer e reproduzir vocês não precisariam estar aí.
Um abraço a todos e obrigado.

9 de jul de 2010

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brigadão.